Universo PI - Rede GAPI: motor da economia do conhecimento
A rubrica “Universo PI” que inaugurámos, no Linkedin, por ocasião do 48º aniversário do INPI em 2024, conta nesta edição com o testemunho de Rita Rocha, coordenadora do InnoValue - Innovation Value Creation in Health NOVA Medical School, da Universidade Nova de Lisboa.
Rede GAPI: motor da economia do conhecimento
A valorização do conhecimento como motor de desenvolvimento
A valorização do conhecimento científico e tecnológico é crucial para dinamizar a economia e fortalecer a competitividade nacional. Contudo, a criação de valor não é um processo linear. Segundo o European Innovation Scoreboard 2025, Portugal produz, hoje, mais de 40 mil publicações científicas por ano, o que o coloca entre os países europeus com maior atividade científica. Apesar disso, as exportações de serviços baseados em conhecimento, a colaboração entre o tecido empresarial e a academia, bem como o número de pedidos de patente, continuam abaixo da média europeia. O relatório de 2024 do European Patent Office (EPO) indica que as universidades portuguesas são responsáveis por cerca de um terço das patentes registadas desde 2000, posicionando o país entre os que mais dependem do sistema académico para gerar inovação. Em conjunto, estes indicadores realçam a necessidade de reforçar a transferência de conhecimento e de aproximar a inovação do tecido empresarial, tornando a ciência num verdadeiro motor de desenvolvimento para Portugal.
É precisamente neste contexto que surgem os Gabinetes de Transferência de Conhecimento, também conhecidos como Tech Transfer Offices (TTO), nas Universidades e Institutos de Investigação e Desenvolvimento (I&D). Em Portugal, a maioria destes gabinetes integra a Rede de Gabinetes de Apoio à Promoção da Propriedade Industrial (GAPI), criada pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
A criação de valor exige mais do que produzir conhecimento: requer uma estratégia. Cada instituição (pública ou privada) deve mapear os seus ativos intelectuais — tangíveis e intangíveis, como o saber-fazer, proteger a propriedade intelectual que gera e definir estratégias de valorização alinhadas com a sua identidade e relevância territorial. Para isso, necessita de competências técnicas especializadas.
A missão da Rede GAPI
Criada em 2001 e atualmente com 38 membros, a rede GAPI é uma infraestrutura crucial para a estratégia nacional da ciência, inovação e economia, e a sua missão vai além do apoio técnico em Propriedade Intelectual (PI). Enquanto catalisador da ligação entre a ciência e a economia, a rede GAPI promove uma cultura de valorização da inovação e da PI, contribuindo para a profissionalização da gestão do conhecimento. Promovendo ações formativas periódicas, o INPI transfere competências técnicas para cada membro da rede GAPI, que lhes permite assumir responsabilidade pela valorização dos ativos intelectuais da sua instituição. Para isso, os GAPI criam alianças estratégicas com empresas e outras entidades da sociedade, reforçando as bases de uma economia assente no conhecimento e promovendo canais eficazes de transferência de inovação para o tecido económico.
Assim, a missão da rede GAPI mantém plena atualidade e coerência com as orientações mais recentes da Comissão Europeia (CE) e com os objetivos da Agenda de Política do Espaço Europeu da Investigação (ERA 2022–2024). A CE identifica a importância de profissionalizar a gestão da PI, de promover uma transferência de conhecimento responsável e de reforçar a cooperação entre academia, indústria, sociedade civil, decisores políticos e ambiente — os cinco eixos da chamada Quíntupla Hélice. Especificamente, no âmbito das políticas de inovação regionais e na agenda dos European Innovation Ecosystems (2021–2027), o modelo europeu reconhece os Gabinetes de Transferência de Conhecimento como os atores estruturantes das redes de inovação, capazes de dinamizar ecossistemas colaborativos e sustentáveis que criam valor económico, social e ambiental.
Descentralização e impacto: o exemplo da Universidade NOVA de Lisboa
A descentralização dos Gabinetes de Transferência de Conhecimento reforça a sua missão e o seu impacto, garantindo proximidade aos contextos de investigação e inovação, onde o conhecimento é gerado. A Universidade NOVA de Lisboa constitui um exemplo deste modelo descentralizado: possui atualmente quatro Gabinetes de Transferência de Conhecimento no universo das suas nove Unidades Orgânicas — um gabinete central, sediado na Reitoria, e três gabinetes descentralizados, localizados em diferentes Unidades Orgânicas, que atuam de forma coordenada e sinérgica. Esta configuração traduz uma opção estratégica de proximidade, concebida para fortalecer a ligação entre a investigação e a valorização do conhecimento em cada contexto académico. A experiência demonstra a sua eficácia: as Unidades Orgânicas com gabinetes locais registaram um aumento expressivo no número de invenções, nos pedidos de registo de patentes e marcas, confirmando a importância de estruturas de apoio próximas dos investigadores. No caso particular da Faculdade de Ciências Médicas | NOVA Medical School, a criação de valor através do GAPI tem sido especialmente significativa: o número de ativos intelectuais e as receitas provenientes de contratos de investigação com a sociedade civil e empresas multiplicaram-se por dez em apenas dois anos. Estes resultados validam a opção institucional por um modelo descentralizado, como fator de eficiência, sustentabilidade e cultura de inovação.
Os Gabinetes de Transferência de Conhecimento como infraestrutura estratégica para a liderança científica e tecnológica
A valorização da PI não é um mero exercício jurídico — é uma estratégia para a liderança científica e tecnológica. Ao apoiar o registo, a proteção e a transferência de invenções e tecnologias, os Gabinetes de Transferência de Conhecimento fortalecem a ligação entre ciência e a sociedade, acelerando a criação de novos produtos, processos e serviços de base tecnológica. Simultaneamente, reforçam a competitividade do tecido empresarial e maximizam o retorno do investimento em ciência. Por isso, os Gabinetes de Transferência de Conhecimento revelam-se infraestruturas essenciais da economia do conhecimento. Não produzem ciência, mas fazem com que a ciência produza valor. Não são empresas, mas criam as condições para a criação de empresas baseadas em conhecimento. E, acima de tudo, representam o potencial científico e tecnológico das universidades e instituições de I&D. A rede GAPI constitui uma resposta estratégica às ambições europeias. Investir na rede e nos seus membros é investir no futuro de Portugal - um país que deve ambicionar liderar a criação de valor através do conhecimento.
Rita Rocha
Coordenadora do InnoValue - Innovation & Value Creation in Health NOVA Medical School
Universidade Nova de Lisboa