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Universo PI - Propriedade Intelectual e captura de valor nos ecossistemas industriais

Na edição de maio da rubrica “Universo PI”, partilhamos o testemunho de Jorge Portugal, Diretor-Geral da COTEC Portugal, membro do Conselho Consultivo do INPI.
27 mai 2026, 13:05
Universo PI - Propriedade Intelectual e captura de valor nos ecossistemas industriais
Universo PI - Propriedade Intelectual e captura de valor nos ecossistemas industriais

Uma empresa industrial que desenvolve máquinas industriais pode acreditar que compete sobretudo através da qualidade da engenharia, da robustez do equipamento ou da eficiência da produção. Todos estes factores são essenciais para o sucesso no mercado. No entanto, uma parte crescente do valor económico do negócio está hoje distribuída por um sistema muito mais amplo do que o próprio equipamento. 

A máquina incorpora software, sensores, componentes especializados, serviços de manutenção, interfaces digitais, assistência remota e relações técnicas com distribuidores, instaladores e fornecedores. Em muitos casos, os dados operacionais gerados pelo equipamento passam a influenciar manutenção, eficiência energética, desempenho e relação comercial com o cliente ao longo do tempo. O valor económico da empresa começa assim a depender da forma como coordena este conjunto de relações, serviços, conhecimento técnico e activos intangíveis. 

A crescente complexidade destes ecossistemas está a redefinir o papel estratégico da Propriedade Intelectual. Durante muito tempo, a PI foi vista sobretudo como um instrumento de protecção jurídica: registar uma patente, proteger uma marca ou impedir cópias. Hoje, continua a desempenhar esse papel, mas tornou-se também um mecanismo de coordenação das relações económicas em torno da inovação. 

Uma patente pode proteger uma tecnologia crítica. Uma marca pode reforçar confiança internacional. O segredo de negócio pode preservar parametrizações, software ou processos industriais difíceis de replicar. Contratos podem regular acesso a dados, manutenção ou utilização de componentes críticos. Modelos de licenciamento podem alinhar distribuidores e parceiros internacionais com a estratégia da empresa. 

A questão relevante para o negócio, mais do que “o que proteger?”, é compreender como a empresa mantém capacidade de apropriação do valor criado pelo seu ecossistema à medida que esse ecossistema cresce e se expõe à concorrência. Esta mudança é particularmente importante nos processos de internacionalização.  

Quanto maior a integração da empresa em redes internacionais de fornecedores, distribuidores, integradores tecnológicos e plataformas digitais, maior também a exposição à circulação de conhecimento, à imitação e à perda de controlo sobre activos intangíveis. 

Em muitos sectores industriais, o valor económico do negócio depende crescentemente da forma como a empresa gere tecnologia, dados, serviços e relações internacionais. Isso inclui a capacidade de manter relacionamento com clientes, controlar interfaces tecnológicos, estruturar serviços pós-venda, gerir dados operacionais e coordenar parceiros ao longo do ecossistema. 

A evolução recente da indústria mostra que as empresas mais bem posicionadas conseguem estruturar mecanismos de apropriação de valor ao longo de todo o ecossistema associado ao produto. Por essa razão, a Propriedade Intelectual já não pode ser tratada apenas como uma dimensão jurídica ou administrativa da empresa. Tornou-se parte integrante da estratégia industrial, da internacionalização e da competitividade. 

É também por isso que os próprios institutos de propriedade industrial começam a assumir um novo posicionamento. O seu papel já não se limita ao registo e administração de direitos. Passa crescentemente pela capacitação estratégica das empresas para a gestão de activos intangíveis, internacionalização, licensing, governance de conhecimento e valorização económica da inovação. 

Num contexto em que a competitividade depende cada vez mais de activos “intangíveis”, a gestão da Propriedade Intelectual tem que manter forte proximidade com a estratégia, o financiamento e a arquitectura dos modelos de negócio. 

É neste enquadramento que iniciativas como o IVL – Intangible Value Lab e o certificado IP-Ready, que a COTEC Portugal irá desenvolver em parceria com o INPI, ganham relevância. A missão passa por capacitar empresas a desenvolver maturidade estratégica na gestão de activos intangíveis, reforçando a sua capacidade de financiamento, internacionalização, crescimento e apropriação sustentável do valor criado pelos seus ecossistemas.